quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O Povo.

(Ramada - principio anos 60 / Arq. Mun.Lisboa)


Pelo que eram as casas poderemos deduzir quem eram os moradores da Ramada. Aquelas modestíssimas construções eram o lar dos numerosos moleiros que faziam rodar as velas brancas dos moinhos de vento, que formavam um semicírculo em torno da aldeia, desde o topo sudeste dos Bons Dias, continuando para Sul e depois, saltando para o alto da Arroja, voltando aí para noroeste até ao sítio agora conhecido por Pedernais Sul. Não é possível já saber quantos eram estes moinhos. Alguns já foram destruídos sem deixar vestígios, mas eram, com certeza, mais do que cerca de uma dúzia que ainda têm as paredes erguidas. Devia ser maravilhoso este panorama de velas brancas, rodando sobre o tapete verde das encostas.
A par dos moinhos terá havido também uma azenha, dificilmente duas como alguém quer. Parece que só a memória toponímica serve de apoio a esta suposição. Chama-se rua da Azenha à rua entre as traseiras da rua Aura Abranches e a ribeira. A referência toponímica “Olival da Azenha” não indicia a existência de tal engenho, porque ali não corria a água indispensável.
Além dos moleiros, moravam aqui os pequenos e alguns médios agricultores de conta própria, que semeavam cereais e legumes nas terras mais planas ou menos declivosas
e amanhavam as hortas nas quebradas ou em socalcos, junto da ribeira.
Tinham também aqui o seu tugúrio os trabalhadores de enxada, cavadores à jorna nas casas maiores, talvez alguns servos habituais do Convento de Odivelas.

Extrato de artigo escrito por: António Joaquim Mendes Cerejo – Morador da Ramada (90 anos idade)
(Escrito em Abril/2005)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Cine Esplanada de Odivelas "ao fundo"...



Não gosto... nem nunca gostei... de saudosismos "bacocos". Estamos numa época de mudança e não se espera que tudo se mantenha igual. No entanto sinto alguma nostalgia por ver ser destruidas algumas das referências da minha juventude. Sobretudo quando estas são substituidas por outras de "valor duvidoso".
A Câmara Municipal de Odivelas enviou um comunicado de imprensa ao "Diário de Odivelas" no qual anuncia: "Devido às obras de requalificação da zona histórica da cidade de Odivelas, a partir do dia 10 de Outubro e durante um período de 5 dias, vai proceder-se à demolição da estrutura de betão, situada na Rua do Souto, de modo a construir-se o Parque de Estacionamento junto a este arruamento."
Requalificação histórica? Questiono-me eu...

Eu relembro aqui um pouco da "história que foi abaixo":

A Sociedade Musical Odivelense desperta para a magia do Cinema nos anos vinte do século passado, iniciando um processo que vai dar lugar ao primeiro Cinema em Odivelas.
As primeiras projecções cinematográficas decorreram numa sala cedida pelo Clube os Passarinhos, com sessões muito pontuais e de iniciativa privada.
Deste período inicial nada ficou registado sobre os filmes que foram exibidos. Porém, destas primeiras experiências cinematográficas resultaram dois factores: o fascínio pelo Cinema e a consciência de que esta actividade era altamente rentável. Assim, o espaço que o Cinema ocupa dentro das actividades da SMO vai sendo cada vez maior, transformando-o na década de 30 na principal actividade, lugar que vai ocupar até aos anos 70.
A partir 1931, com a edificação da Sede própria, a exibição de cinema ganha um carácter mais regular, registando-se a apresentação de Filmes como “A Maria Papoila “, “ A Aldeia da Roupa Branca “ ou “ O Ditador”.
As exibições efectuadas na sede, eram complementadas com as sessões de cinema ao ar livre, durante os meses de verão. Estas sessões inicialmente eram realizadas em espaços cedidos temporariamente para a realização da animação de Verão. Um dos primeiros locais onde foi projectado Cinema ao ar livre, foi no quintal do Sr. Antunes Branco, que no ano de 1938 o disponibiliza à S.M.O. Em 1956 o Cinema ao ar livre deixa de ter esta envolvência precária, com a negociação com o proprietário de um outro local, sito na
Rua do Souto, em Odivelas, o Sr. Valentim Duarte das Neves. É neste local que se virá a edificar a Cine Esplanada, cuja inauguração se efectua a 29 de Junho de 1956, dotando o Cinema ao ar livre de um espaço e vida própria.
O empenho dos órgãos dirigentes em desenvolver esta actividade de forma directa é visível no teor do ofício dirigido ao Sindicato Nacional dos Profissionais de Cinema, a solicitar que admitissem a exame “ … de segundo projeccionista o Sr. Sebastião Monteiro Freire …” , um dos directores da Direcção da Sociedade desse período.
A licença do título definitivo da exploração da esplanada como Cinema, só é atribuída pela Secretaria Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo em 1967, passando os odivelenses a dispor de uma sala de Cinema ao ar livre com uma lotação de 500 lugares.


Em: http://smodivelense.home.sapo.pt/

Comentários para quê?!...
PS - Foto do cartaz tirada do site da Soc. Musical Odivelense.



foto que tirei em 2005.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Escola (2)... há 40 anos


De cachimbo na boca o "nosso" Professor Teixeira e os "seus" rapazes...
Desta "malta" há três ou quatro que ainda vejo. Por onde andarão os outros?

(Foto pessoal)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A Escola.



Pode ser que "alguém", que por aqui passe, se reveja nesta foto. Foi tirada na Escola Primária da Ramada há uns bons “anitos” atrás. Ao centro em cima o nosso professor Teixeira.
A escola ainda lá está no mesmo sítio. Se pudesse “falar”... muito teria que contar...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Ainda nos Bons-Dias.

Continuando ainda nos Bons-Dias os transportes eram escassos. A “Arboricultora” era a empresa detentora da exploração de transporte de passageiros. Os autocarros de Caneças para Lisboa eram espaçados no tempo. Bem como os de Montemor. Assim, quando havia que ir a Odivelas ou ao Senhor Roubado, e por qualquer razão não se conseguia apanhar o autocarro... ia-se a pé!...
Custava nos anos 60 (1$00 – 1 escudo para adulto e $50 – cinquenta centavos para uma criança) a viagem.
Para os “mais novos” era qualquer coisa como, ao custo de hoje em Euros:
- 1$00 equivale hoje a meio cêntimo. Ridículo não?!...


A primeira imagem - Rua Torcato Jorge (ao fundo da rua começava os Bons-Dias. À esquerda/cimo da foto a Serra da Amoreira) - Arquivo Mun. Lisboa (Anos 60)
A Segunda imagem - Autocarro da Arboricultora - (imagem cedida p/ amigo)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Lugar dos Bons-Dias

Por algum local tinha de começar. Assim sendo resolvi começar a escrever sobre o lugar onde vivo...
Há muitos que já sabem... outros se calhar nem tanto. Muitas vezes moramos em locais em que desconhecemos, por exemplo, o porquê do nome desse lugar.
Das poucas habitações que se construíram entre Odivelas e Caneças há uma pequena casa, junto à estrada principal, em que as pessoas passam quase diariamente e nem sequer reparam. Casa essa que terá, pelas minhas contas, mais de sessenta anos.
Essa pequena casa se pudesse falar muito teria para contar. Assistiu, durante toda a vida, à passagem de pessoas, animais e de veículos de toda a espécie.
Convém não esquecer que o norte de Lisboa eram só e quase hortas que haviam. Além de muitos moinhos de vento... casas muito poucas.
Lembro-me, em pequeno, de por ali passarem carroças. A carroça do “Ti Júlio” do peixe, a carroça do “homem do petrolino” (que vendia azeite, óleos, sabão, petróleo e outros), O “Ti Chico e a Ti Carlota” que vendiam leite à porta transportado por um jumento enfim... um “sem número” de personagens que por ali passavam.
A casa nada tem de especial que chame a atenção. A não ser uma pequena placa em metal esmaltado em que está escrito: “Bons Dias”.
Serviu durante anos de referência a quem por ali passava para cima e para baixo.
“-Segue na estrada e junto à curva dos Bons-Dias (casa)...”.
Era um modo de identificar aquele pequeno lugarejo que muito mais tarde chegou a ter uma placa identificativa com esse nome e que foi, não sei porquê, posteriormente retirada.
Um dia destes hei-de aqui colocar uma foto com essa placa. Não o faço agora porque tenho de a retirar dum filme que na altura fiz com a minha máquina de vídeo.
Para quem não sabia... eis a razão do nome do lugar dos Bons-Dias. Tão simples quanto este lugar...

(Fotos pessoais)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A história... possível.


Comecei, após os dois últimos artigos, a pensar num projecto que tenho vindo a pensar e a adiar há muitos anos.
Vivo neste lugar dos “Bons-Dias” há meio-século. Assisti a muita “coisa” e ouvi muitas histórias.
Aquilo a que me proponho fazer não tem a ver com saudosismos “bacocos” nem fazer reviver “seja o que for”. Vou tentar, e sublinho tentar, dar um retrato fiel, tanto quanto possível destas terras (Odivelas, Ramada, Bons-Dias, Caneças, Olival Basto, Póvoa Santo Adrião, Aires, Chapim, Pedernais, Serra da Amoreira, etc.), das suas gentes, do seu modo de viver.
É evidente que tudo irá depender de tudo o que conseguir reunir de pessoas mais velhas que tenham em seu poder fotos “antigas” ou relatos de “estórias” várias.
A esta distância é tarefa árdua a que me proponho fazer. No entanto o entusiasmo não me falta. Espero poder vir a contar com a ajuda de todos os que quiserem ajudar.
Eu tenho algum “material” que tenho recolhido ao longo de vários anos. É um principio de “caminhada”... que quero partilhar pelo simples gosto de partilhar.

Foto: Eu e os meus pais / Bons-Dias 1962