quarta-feira, 17 de junho de 2009

Memorial de Odivelas (IV)


Os elementos consultados conduzem-nos a admitir que o monumento de Odivelas é coevo de D. Diniz, mas não nos permitem determinar exactamente nem a data da sua construção, nem a primeira finalidade para que foi construido.
Inicialmente poderá ter servido para marco de couto, mas não há dúvida de que serviu a cerimónias fúnebres.
O local, o cimo do outeiro à vista da Igreja do Convento de Odivelas, onde o esperava o túmulo, terá sido aproveitado para a paragem do féretro de D. Diniz, a fim de se organizar o cortejo, de acordo com o ritual do tempo.
Quando da transladação de D. João I, de Lisboa para a Batalha, do mesmo modo, o local e o monumento está relacionado com a natural paragem do féretro dada a proximidade do Convento, onde, naturalmente, a comitiva terá pernoitado.
Contudo torna-se difícil situar exactamente a data da sua feitura, principalmente pelas adulterações que o monumento terá sofrido, nas diversas adaptações às cerimónias em sucessivas épocas, como sempre foi e continua a ser prática corrente a de "lavar a cara" aos locais que vão sendo visitados por "Suas Excelências".


IN: "O Memorial" - Junta de Freguesia de Odivelas 1997 - paginas 7 e 8.
foto que tirei em 2005.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Memorial de Odivelas (III)



A hipótese do monumento ser coevo de D. Diniz é a que apresenta mais raízes populares, além de ser defendida pela maioria dos autores, usando da argumentação seguinte:

- A arquitectura e os arcos tribulados são da época de D. Diniz. Idênticos arcos são usados na decoração do seu túmulo.

- A citada cruz floreteada é uma estlização e é igual a tantas outras que nos séculos XIII, XIV e XV encimavam as igrejas da época. Ela não representa mais que o símbolo supremo do cristianismo, não se identicando com a cruz de Aviz.

- O grande número de castelos existentes no escudo real era corrente no tempo de D. Diniz, pois ali mesmo, no seu Paço de Odivelas onde se ergeu o Convento, figuravam 24 castelos no escudo real.

O autor Mário Guedes Real que, embora mantendo a hipótese do monumento ser coeva de D. Diniz, sugeriu uma utilização ainda não mencionada, a de que “não é mais do que um simples cruzeiro monumental, um padrão de couto, demarcando os limites territoriais na área jurisdicional do Mosteiro”.
A favor deste autor reconhecem-se dois elementos válidos. Primeiro a historiografia do Mosteiro de Odivelas que pertenceu à Ordem de Cister, regista a sua fundação em terrenos onde D. Diniz possuía um couto, englobando a antiga Quinta da Memória e os Pombais, tendo sido doado com outros bens, à referida ordem. O segundo elemento é de qu, os outros locais de Portugal, onde a Ordem de Cister possui coutos, podemos encontrar marcos ou arcos semelhantes ao de Odivelas, como por exemplo, em Alcobaça.


IN: "O Memorial" - Junta de Freguesia de Odivelas 1997 - paginas 6 e 7.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Memorial de Odivelas (II)


O “Memorial” de Odivelas, como outros existentes no país, estão quase semmpre relacionados com actos fúnebres, por vezes de uma forma permanente por se lhe atribuirem funções tumulares, outra, com carácter transitório para poiso ou paragem de féretros antes de atingirem o seu destino.
No caso particular de Odivelas a maioria dos autores opinavam que terá servido apenas como poiso ou paragem de actos fúnebres, mas nunca surgiu a hipótese tumular.
Contudo as opiniões são divergentes entre as duas suposições.
A primeira é a de que o monumento é do século XV e que teria servido na transladação do rei D. Diniz, falecido em Santarém a 7 de Jabeiro de 1325 e que dali viria com destino ao mausoléu que na igreja do Convento de Odivelas o aguardava para a deposição do seu corpo. O monumento continuou a memoriar esse facto.
A segunda suposição diz que terá servido na transladação do corpo de D. João I falecido em 25 de Outubro de 1443 e que de Lisboa transitou para o Mosteiro da Batalha. O monumento teria sido erguido nessa época.
Em defesa da segunda suposição os autores baseiam-se em pormenores da arquitectura, no grande número de castelos – 13 – que guarnece o escudo real e na cruz floreteada que encima o monumento identificando-a com a Cruz da Ordem de Aviz, de que D. João I era Mestre.


IN: "O Memorial" - Junta de Freguesia de Odivelas 1997 - pagina 6.


sexta-feira, 8 de maio de 2009

Memorial de Odivelas (I)


Esta foto foi "retocada" por mim. Não faço ideia o ano em que foi tirada mas, pelos trajes, deverá ter sido na primeira metade do século XX.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Mosteiro São Dinis (IV)

Fotos de 1956 (interior do Mosteiro)




fotos - Arq.Fotog.Dist.Lisboa

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Mosteiro São Dinis (III)

Uma comunidade dois estatutos

Jardim interior


Neste mosteiro viviam senhoras nobres com dois estatutos diferentes – as que professavam e eram freiras e as que nunca fizeram votos e eram simples recolhidas. As três primeiras abadessas estão neste número: D. Elvira Fernandes, D. Constança Lourenço e D. Urraca Pais.
A D. Elvira coube a tarefa de iniciar e organizar a vida desta comunidade, quando aqui se instalaram as primeiras religiosas. Não tive notícia do fim do seu abadessado, mas a 14 de Julho de 1300, já era abadessa D. Constança Lourenço, pois é assinada por ela, uma “constituição” de regras mais brandas, com o acordo do Rei, do Bispo de Lisboa e do Abade de Alcobaça, que igualmente assinaram. Esta D. Constança Lourenço pertencia a uma das mais nobres familias de Portugal e Castela e era irmã de D. Branca Lourenço, Senhora com a qual D. Dinis manteve uma relação amorosa, a quem doou a vila de Mirandela com seus termos, e provável mãe de D. Maria Afonso, cujo túmulo se conserva na Igreja do Mosteiro.
Em 1316 foi eleita pela comunidade D. Urraca Pais, por iniciativa da qual se reformou novamente a “constituição2, mas no sentido de maior rigor e observação da clausura, repondo a disciplina inicial.
No século XVI destacou-se a figura de D. Violante Cabral, familiar de Pedro Álvares Cabral (irmã ou sobrinha), pela boa governação da casa, e mais ainda por se lhe ficar a dever o auto da Cananeia, que Gil Vicente escreveu por encomenda sua e aqui representado em 1534 pela primeira vez.
No século XVII, por certo, a regra perdera todo o seu rigor, pois os ecos que até nós chegaram dão-nos indicios da brandura da regra. Segundo escritos desse tempo, D. Ana de Moura e D. Feliciana de Milão, despertaram o interesse do rei Afonso VI, que no largo do couto, exibia os seus dotes de cavaleiro na lida de touros.
No século XVIII, a todas sobrelevou a conhecida e famosíssima Madre Paula, que entrou no mosteiro com dezasseis anos incompletos. Para D. João V, vê-la e amá-la, foi inevitável. Que esses amores aconteceram, não temos como negá-lo, pois o seu fruto, o Infante D. José, que o rei legitimou e que foi criado com dois irmãos (de pai) em Palhavã.
Cozinha do Mosteiro
Fonte: Páginas 36, 37 e 39 do livro: “Odivelas - Uma viagem ao Passado” de Maria Máxima Vaz

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Mosteiro de São Dinis (II)



Outra das justificações que merece ser de considerar, para a construção do mosteiro, é a que consta na carta de dotação. Diz o monarca: “...Nós, D. Dinis, pela graça de Deus Rei de Portugal e do Algarve, com nossa mulher a Rainha D. Isabel e com os nossos filhos Infante D. Afonso, filho primeiro e herdeiro, e Infanta D. Constança, em honra de Deus e da Virgem Santa Maria e de toda a corte celestial e especialmente em honra e louvor de S. Dinis e S. Bernardo, por nossas almas, dos Reis que antes de nós foram, e remimento de nossos pecados, e de nossos sucessores, fundamos, e fazemos de novo em a nossa câmara de morada, que nós havíamos em termo da nossa cidade de Lisboa, em lugar que é chamado Odivelas...”(1)
Com toda a clareza afirma D. Dinis que a obra é feita em “honra de Deus, da Virgem Maria e ainda de S. Dinis e S. Bernardo, por sua alma e de seus familiares e em remissão dos seus pecados”. Esta é uma razão não menos importante, considerando a mentalidade daquele tempo. Mas há mais um motivo e que, na minha opinião (2) terá sido o verdadeiro, ou pelo menos, o mais forte:
“O intento que El-Rei teve para recolher nele religiosas... foi, ao que parece, porque tinha duas filhas bastardas, que desejava acomodar no estado de Religião, e a esse fim fundou junto à corte de Lisboa, este mosteiro, na qual uma dela tomou hábito...
Que fosse esta a causa ao menos parcial de se fazer o mosteiro... não parece pouco conforme à boa razão. (2)
O próprio autor da “Monarquia Lusitana”, frade cistercense, é de parecer que é “conforme à boa razão”, ser esta uma das causas, senão a causa principal, da fundação do Mosteiro de Odivelas.
Se assim foi, como interpretar a história do urso, ao que parece, contada pelo próprio rei? Parece-me que seria difícil obter o monarca, a aprovação da Corte e, em particular, da Igreja e da Ordem de Cister, se declarasse abertamente que desejava fundar uma casa religiosa para nela “acomodar” as filhas naturais. Um milagre, era uma justificação que não comprometia ninguém, enaltecia o rei e agradava a todos. D. Dinis provou que, além de excelente poeta e trovador, era também um talentoso contador de histórias e ainda um diplomata de reconhecido mérito.


(1) – Frei Francisco Brandão, Monarquia Lusitana, V parte, p. 219
(2) – Ibidem, p. 221 v.

Fonte: Páginas 34 e 35 do livro: “Odivelas - Uma viagem ao Passado” de Maria Máxima Vaz