domingo, 15 de junho de 2014

Fontes e matas.


Em domingos como este, muito quente, há muitos anos (mesmo há muitos) era ver autênticas romarias de pessoas, de Caneças e arredores, irem fazer piqueniques nas matas que existiam junto às fontes.
Levavam-se algumas "mantas de trapo" e debaixo das árvores frondosas e centenárias faziam-se os piqueniques de família. Eu pude vivenciar com os meus pais e tios estas "refeições a ar livre" e boa água. Para os homens, evidentemente, havia um pequeno "palhinhas" que refrescava com água da fonte.
Os miúdos, como eu, brincávamos ali à volta montados em "cavalos imaginários" e vestindo alguma das personagens da banda desenhada. Eram "Bufalos Bills", "Kit Carsons", "Buck Jones" ou outros quaisquer. Interessava era a brincadeira "partilhada". Um pequeno galho de árvore servia perfeitamente de pistola ou carabina para "caça aos índios" que se escondiam por detrás de cada árvore (coitados dos índios...).   
Os pais falavam, em conversas de adultos, de tempos recentes ou passados que a eles só diziam respeito. 
Depois havia o farnel que vinha em alcofas e embrulhado em papel de jornal para manterem o "quente" e saberem a acabado de fazer. Almoço acabado e deitávamo-nos nas mantas que se levavam e que nos protegiam da caruma dos pinheiros ou das folhas e bagas dos eucaliptos. Por ali "batíamos grandes sornas" ao som do vento e das árvores.
Regressávamos ao fim do dia... na camioneta (da Arboricultora) que nos deixava à beira de casa.
Terminava um domingo que hoje ainda recordo...
Banalidades dos tempos de hoje que eram ocasiões especiais naqueles tempos...


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Os Robertos.


Hoje não passam de imagens do passado que, de quando em vez, são recriadas em ambientes de salas fechadas ou nalgum evento comemorativo. Há uns bons anos atrás podiam-se ver nas praias, nas feiras e nas festas. Calcorreavam as vilas e aldeias deste nosso Portugal em tempo de invernia e as praias em tempo de veraneio.
Como todos os espetáculos, feitos na rua, atraíam a si miúdos e graúdos que de outra forma não teriam outro evento que ver. Faziam-se cobrar de alguns escudos que mãos mais generosas lhes ofereciam.


Os “gaiatos”, como eu, ficavam literalmente “agarrados” ao que se passava dentro daquela pequena barraca, com uma abertura, por onde os “robertos” apareciam. Geralmente havia alguém a bater no outro. Ou nalgum toiro que entrasse em cena. Vozes estridentes que se faziam ouvir bem longe...



(Filme Dom Roberto com Raul Solnado)

Nunca dei conta dalgum roberto que tenha enriquecido...

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Chafariz - Serra da Amoreira.


Quem sobe a Serra da Amoreira, pelo lado da Ramada, a caminho do castelo encontra este pequeno fontanário de recanto. Um pequeno banco corrido serve para descansar as pernas ou simplesmente sentar-se a apanhar um pouco de sol.
Haviam vários pelo concelho já que água era coisa que abundava e não se pagava. Quando ainda não havia água canalizada em casa, eram bastantes os habitantes que recorriam à água que saía abundantemente desses fontanários.

Ao mesmo tempo eram lugar de encontros ou apenas de alguma simples “cavaqueira” despreocupada. Existiam alguns que, nas laterais ou à frente, possuíam uns pequenos tanques onde as “alimárias” saciavam a sua sede.


quinta-feira, 29 de maio de 2014

DIA DA ESPIGA.



Diz o adágio popular: "Cada terra com o seu uso... cada roca com o seu fuso". Também por esta região se comemora (ou comemorava) o dia da espiga.

O Dia da Espiga, coincidente com a Quinta-feira da Ascensão, é uma data móvel que segue o calendário litúrgico cristão. Mas, se atualmente poucas são as pessoas que ainda vão ao campo nessa quinta-feira, abandonando as suas obrigações, para apanhar a espiga, ou que se deslocam às igrejas para participar nos preceitos religiosos próprios da data, tempos houve em que, de norte a sul do país, esta foi uma data faustosa, das mais festivas do ano, repleta de cerimónias sagradas e profanas, que em muitas zonas implicava mesmo a paragem laboral. A antiga expressão “no Dia da Ascensão nem os passarinhos bolem nos ninhos” deriva dessa tradição.
A Igreja de Roma, à semelhança do que fez com outras festas ancestrais pagãs, cristianiza depois a data e esta atravessa os tempos com uma dupla aceção: como Quinta-feira de Ascensão, para os cristãos, assinalando, como o nome indica, a ascensão de Jesus ao Céu, ao fim de 40 dias; e como Dia da Espiga, ou Quinta-feira da Espiga, esta traduzindo aspetos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera agrícola e familiar.
O Dia da Espiga é então o dia em que as pessoas vão ao campo apanhar a espiga, a qual não é apenas um viçoso ramo de várias plantas - cuja composição, número e significado de cada uma, varia de região para região –, guardado durante um ano, mas é também um poderoso e multifacetado amuleto, que é pendurado, por norma, na parede da cozinha ou da sala, para trazer a abundância, a alegria, a saúde e a sorte. Em muitas terras, quando faz trovoada, por exemplo, arde-se à lareira um dos pés do ramo da espiga para afastar a tormenta.
Não obstante as variações locais, de um modo geral, o ramo de espiga é composto por pés de trigo e de outros cereais, como centeio, cevada ou aveia, de oliveira, videira, papoilas, malmequeres ou outras flores campestres. E a simbologia de cada planta, comummente aceite, é a seguinte: o trigo representa o pão; o malmequer o ouro e a prata; a papoila o amor e vida; a oliveira o azeite e a paz; a videira o vinho e a alegria; e o alecrim a saúde e a força.
Retirado de:

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Calçada de Carriche.



Calçada de Carriche
Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão, in 'Teatro do Mundo'


terça-feira, 13 de maio de 2014

domingo, 11 de maio de 2014

O homem do saco versus ferro velho.


Em todas as terras havia, não sei se ainda existem, uns homens que andavam sempre com uma “sacola” de sarapilheira às costas. Também por aqui existiram, em tempo já idos, personagens semelhantes. Os tempos eram outros e uma forma de alguns homens arranjarem dinheiro era andar de lugar em lugar, de porta em porta, à “cata” de alguma coisa velha que lhe pudesse render uns “cobres”. Andarilhos da vida dormiam onde calhava conforme as estações do ano. Alguns acabavam por ficar, chegada a velhice, num dos lugarejos onde alguém, por certo, lhes daria uma “bucha” ou um prato de sopa. A sua fisionomia era, em geral, de ar pesado e carrancudo. Não me admira, hoje, que assim fossem. “Gastos pela vida” pouca, ou nenhuma, razão teriam para andar de cara risonha.
Desde que me lembro, o “homem do saco” era uma figura utilizada pelas mães, e ou avós, para fazerem prevalecer as suas razões.
- Se não comeres a sopa chamo o “homem do saco” e ele leva-te!...
Coitado do “homem do saco”… pouco lhe importaria se a criança quisesse ou não… comer a sopa!..


Adaptação do poema por Alexandre O'Neill
Poema (original) e musica de Joan Manuel Serrat