sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

Cheias Novembro de 1967



(Fotos do Arquivo Fotográfico Distrital Lisboa)
Na noite de 25 para 26 de Novembro de 1967, em pouco mais de 12 horas, a região de Lisboa era atingida por fortes chuvas, que viriam a originar uma das maiores calamidades que se abateram sobre esta área.
A subida das águas foi de tal maneira forte e rápida, que ribeiras e esgotos ficaram sem qualquer capacidade para as escoar.
A chuva atingiu entre as 19h00 e a meia-noite do dia 25 de Novembro as zonas baixas dos quatro concelhos da Grande Lisboa (Lisboa, Loures, Odivelas, Vila Franca de Xira e Alenquer), mas só na manhã seguinte é que os portugueses se depararam com a verdadeira dimensão da tragédia.
As cheias arrastaram carros, árvores, animais e destruíram pontes, casas e estradas. Prédios destruídos, condutas rebentadas, avenidas transformadas em rios foram algumas das consequências das cheias que fizeram com que a região da Grande Lisboa ficasse irreconhecível. As comunicações foram interrompidas e os transportes públicos ficaram paralisados.
Urmeira, Póvoa de Santo Adrião, Frielas - povoações da bacia do rio Trancão -, e a Quinta dos Silvados, em Odivelas, foram os aglomerados urbanos mais atingidos. As casas eram de madeira e centenas de moradores foram engolidos pelas águas.
No dia seguinte, os meios de socorro revelaram-se incapazes de prestar o apoio às populações atingidas. Testemunhos da época apontam a falta de eficácia do socorro aos sobreviventes e a tentativa do regime de Salazar de impedir que a opinião pública se apercebesse da dimensão real da tragédia.
Os dados oficiais controlados pela censura apontaram para 250 vítimas mortais. Só após a Revolução de Abril é que os especialistas procuraram repor a verdade dos números. O rigor nunca será alcançado, mas estima-se que mais de 700 pessoas tenham morrido durante as inundações e cerca de 1100 tenham ficado desalojados em Lisboa, Loures, Odivelas, Vila Franca de Xira e Alenquer.
As cheias denunciaram a pobreza em que as populações da Grande Lisboa viviam: a maioria das vítimas habitava em barracas construídas nos leitos de cheias.
Perceber que o regime escondia a gravidade da situação, para além de não conseguir auxiliar devidamente os sobreviventes, conduziu a que muitos estudantes das associações académicas a colocarem-se em campo, ajudando as vítimas.
Foi o despertar político de muitos estudantes. Como recorda Mariano Gago "(... ) com as cheias de 1967 e com a participação na movimentação dos estudantes de Lisboa no apoio às populações (morreram centenas de pessoas na área de Lisboa e isso era proibido dizer-se). Só as Associações de Estudantes e a Juventude Universitária Católica é que estavam no terreno a ajudar as pessoas a tirar a lama, a salvar-lhes os pertences, juntamente com alguns raros corpos de bombeiros e militares. Talvez isso, tenha sido um dos primeiros momentos de mobilização política da minha geração."
Durante os dias a seguir às inundações, as redacções dos jornais receberam telegramas e telefonemas com orientações sobre o que se deveria escrever: qualquer referência ao movimento de solidariedade dos estudantes universitários de Lisboa seria, por exemplo, riscado pelo lápis azul da censura.
O regime salazarista tentou minimizar os impactos das chuvas, mas as suas repercussões atravessaram fronteiras e desencadearam um movimento de solidariedade internacional. Chegaram donativos dos governos britânico e italiano, do Principado do Mónaco e até o chefe do Estado francês, o general De Gaulle, contribuiu com uma "dádiva pessoal" de 30 mil francos (900 euros, no câmbio da época). O apoio em meios sanitários veio de França, Suíça e sobretudo de Espanha, que ofereceu mil doses de vacina contra a febre tifóide.
Retirado de: http://pt-pt.facebook.com/note.php?note_id=125628876192

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